Alheteia

O SIGNIFICADO DE ALETÉIA

            Para explicitar o sentido da palavra aletéiavamos citar Martin Heidegger, filósofo do século XX que em sua obra Parmênides, se ocupou exaustivamente com esse termo. Diz ele “O que os gregos nomeiam com a palavra alhqeia   ‘traduzimos’ usualmente com a palavra ‘verdade’. Se, no entanto, traduzirmos a palavra grega ‘literalmente’, então ela nos diz, propriamente, ‘desencobrimento’.”(HEIDEGGER, 2008, p 27)Nos ensina Heidegger que “na essência da verdade como do des-encobrimento vige uma espécie de luta com o encobrimento e com o retraimento. (…) encobrimento, ao contrário, nós conhecemos, seja porque as próprias coisas e seus contextos se ocultam a nós e para nós, seja porque nós mesmos antecipamos, realizamos e admitimos um encobrimento, seja porque ambos, um encobrir-se das ‘coisas’ e um encobrir-se deste encobrimento ocorrem num jogo mútuo por nosso intermédio” (idem, p.33). Mais adiante ele afirma “‘Verdade’ não é jamais, ‘em si’, apreensível por si, mas necessita ser ganha na luta.” (idem, p 35). Temos então que aletéia significa desencobrimento, desvelamento, no sentido de tirar o véu ou descobrir. Tudo isso Heidegger nos diz quando interpreta o poema de Parmênides, filósofo que viveu aproximadamente em 530 a 460 a.n.e. Nesse poema Parmênides diz que foi até a morada de aletéia, que seria uma deusa, a verdade. Note que não é a deusa “da” verdade, mas “a verdade”. Citando Heidegger mais uma vez:

“Parmênides nos relata acerca de uma deusa. O aparecer de um ‘ente divino’ no pensamento de um pensador nos é estranho. Primeiro, simplesmente, porque um pensador não tem a anunciar a mensagem de uma revelação divina, mas traz à fala, em si mesmo, o próprio interrogado. Também, mesmo quando os pensadores pensam sobre ‘o divino’, como acontece em toda ‘metafísica’, este pensar é to qeion ( o divino), como Aristóteles diz,  um pensar a partir da ‘razão’ e não uma reprodução de sentenças de uma ‘fé’ cúltica e eclesiástica. Em particular, porém, causa estranheza o aparecimento ‘da deusa’ no poema doutrinário de Parmênides pelo motivo de que ela é a deusa ‘Verdade’. Pois ‘a verdade’, como ‘a beleza’, ‘a liberdade’, ‘a justiça’, tem valência para nós como algo ‘universal’. Este universal é extraído do particular e atual, do que é cada vez verdadeiro, justo e belo, e é, então, representado de modo ‘abstrato’, num mero conceito. Fazer ‘da verdade’ uma ‘deusa’, isto significa certamente fazer de uma mera noção de algo, ou seja, do conceito da essência da verdade, uma ‘personalidade’” (idem, p. 25)

O poema de Parmênides é uma obra considerada das mais importantes da cultura ocidental por ser a primeira que se preocupa em dizer o que é pensar e como se deve pensar, por isso é um texto filosófico, mas escrito poeticamente. O poema narra uma viagem e fala de seres sobrenaturais e divinos, tal como as narrativas míticas. Uma possível explicação para isso é que, naquela época, para provar que se estava falando a verdade devia-se recorrer aos entes divinos, dizer que foi inspirado por deuses fazia com que o discurso fosse verdadeiro, tal como hoje apelamos para a pesquisa científica, e o poeta da verdade gozava de grande credibilidade. O poema descreve o caminho da verdade, podemos dizer o método para se chegar à deusa verdade, narra o encontro do jovem, que no caso é o filósofo, com a deusa que é o conhecimento. As filhas do sol vão guiar o jovem até as fronteiras que separam a noite do dia. A viagem ocorre durante a noite e lá no fim da noite é a morada da deusa. É uma alegoria para nos dizer que o conhecimento traz a luz, ilumina nossa vida. Alegoria significa um discurso acerca de uma coisa para fazer compreender outra. O sol e a luz são alegorias para o ato de conhecer, significa dizer que quando uma pessoa conhece algo, essa pessoa viu ou chegou até a luz. E quando a deusa diz “é preciso que de tudo te instruas” ressalta a importância de todos os tipos de conhecimentos, sem fazer separação por áreas ou qualquer tipo de divisão do saber, valorizando a totalidade do saber que a filosofia representa. O próprio título do poema “Sobre a natureza” indica a totalidade do ser. Quando os filósofos antigos usavam esse termo “natureza” eles não se referiam ao meio ambiente e sim ao elemento primordial de onde tudo vem e para onde tudo retorna que eles chamavam de physys . A physys é a natureza eterna em perene transformação. A physys é imortal e gera todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo e que são perecíveis e mortais. O conhecimento filosófico não busca saber sobre uma parte das coisas, mas do todo. O poema de Parmênides demonstra como os diversos tipos de conhecimento se completam formando uma totalidade: o conhecimento mítico, que valoriza nossas crenças; o conhecimento literário ou artístico, que valoriza nossos sentimentos e a filosofia que valoriza a razão. E dessa maneira o poema enobrece o próprio ser humano.

 

 

 

SOBRE A NATUREZA

Fragmento 1

As éguas que me levam onde o coração pedisse conduziam-me, pois à via multifalante me impeliram da deusa, que por todas as cidades leva o homem que sabe; por esta eu era levado, por este, muito sagazes, me levaram as éguas o carro puxando, e as moças a viagem dirigiam.

O eixo nos meões emitia som de sirena incandescendo (era movido por duplas, turbilhonantes rodas de ambos os lados), quando se apressavam a enviar-me as filhas do Sol, deixando as moradas da Noite, para a luz, das cabeças retirando com as mãos os véus.

É lá que estão as portas aos caminhos de Noite e Dia. e as sustenta à parte uma verga e uma soleira de pedra, e elas etéreas enchem-se de grandes batentes; destes Justiça de muitas penas tem chaves alternantes.

A esta, falando-lhe as jovens com brandas palavras, persuadiram habilmente a que a tranca aferrolhada depressa removesse das portas; e estas, dos batentes, um vão escancarado fizeram abrindo-se, os brônzeos umbrais nos gonzos alternadamente fazendo girar, em cavilhas e chavetas ajustados; por lá, pelas portas logo as moças pela estrada tinham carro e éguas.

E a deusa me acolheu benévola, e na sua a minha mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava;

Ó jovem, companheiro de aurigas imortais, tu que assim conduzido chegas à nossa morada, salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar esta via (pois ela está fora da senda dos homens), mas lei divina e justiça; é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira. No entanto também isto aprenderás, como as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando.  (PARMÊNIDES, 2000, p.121)

REFERÊNCIAS:

ELIADE, M. Mito e Realidade. Coleção Debates. Ed. Perspectiva. S. Paulo, 2000.

HEIDEGGER, M. Parmênides. Petrópolis, Ed. Vozes, 2008.

PARMÊNIDES, Da natureza. In: Pensadores. Pré-Socráticos – Vida e obra . Nova Cultural. 2000.

___________. Da natureza . Tradução: SANTOS, J. T. Coleção: Leituras filosóficas. Edições Loyola, São Paulo 2002.

REALE, G. História da Filosofia. V.1. Paulus, 2006.

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